maio 07, 2008




John Huss nasceu entre os anos de 1369 e 1371. Sua família era camponesa e vivia na pequena aldeia de Hussinek, na Boêmia.

Ingressou na universidade de Praga quando tinha uns dezessete anos. A partir de então toda a sua vida transcorreu na capital de seu país, a não ser seus dois anos de exílio e encarceramento em Constança.

No ano de 1402 ele foi nomeado reitor e pregador da capela de Belém. Foi ali que ele pregou, com dedicação, a reforma que tantos outros buscavam desde os tempos de Carlos IV. Alguns dos membros mais destacados da hierarquia começaram a encará-lo com receio, mas boa parte do povo e da nobreza parecia segui-lo, e o apoio da realeza ainda era suficientemente importante para que os prelados não se atrevessem a tomar medidas contra Huss.

Como pregador na capela de Belém e reitor da universidade, ele tinha ótima posição para impulsionar a reforma. Ao mesmo tempo que pregava contra os abusos que encontrava na igreja, Huss continuava sustentando as doutrinas geralmente aceitas. Isso não dava brecha nem mesmo para seus piores inimigos e era difícil, assim, censurar sua vida ou sua ortodoxia. Huss era muito gentil e contava muito com o apoio popular. Ao mesmo tempo que questionava alguns pontos da doutrina da igreja, ele reafirmava outros e isso lhe dava a chance de continuar seu trabalho sem ser acusado.

Influenciado pelo reformador inglês John Wycliff, interroga-se seriamente acerca das conseqüências práticas de obediência a Cristo e começa a pregar sermões, na sua língua, criticando fortemente o poder temporal da Igreja de Roma e os abusos cometidos pela hierarquia eclesiástica, influenciado pelo estudo de Wycliff sobre o “senhorio”. A sua luta contra as autoridades da Igreja não eram exatamente de ordem teológica (apesar de afirmar que o fundamento da Igreja é Cristo e não Pedro). Vemos, na verdade, ele questionando a ordem prática e a disciplina eclesiástica, tais como ministrar a Ceia em apenas uma das espécies aos fiéis, quer dizer, na celebração da Ceia, o cálice era para uso exclusivo do celebrante e proibido aos fiéis. Huss denunciou fortemente essa prática como sendo contrária ao ensino das Escrituras e à antiga tradição da Igreja. A venda abusiva das indulgências constitui outro motivo da sua discordância. Toda esta atividade vai levá-lo a dedicar-se à causa da reforma da Igreja.

Nessa época, por conta dos resultados do Concílio de Pisa, havia três papas. O Imperador Venceslau apoiava o papa pisano, enquanto o arcebispo de Praga e os alemães da universidade apoiavam Gregório XII.

Mais tarde, o arcebispo se submeteu à vontade do rei, e reconheceu o papa pisano, mas solicitou a esse papa, Alexandre V, que proibisse a posse da obras de Wycliff. O papa concordou. A proibição foi além! Proibiu também as pregações fora das catedrais, dos mosteiros ou das igrejas paroquiais.

A capela de Belém, onde estava Huss, não se enquadrava em nenhum dos locais. Portanto, a pregação em seu púpito estava proibida! E ele tinha agora de fazer a difícil escolha entre desobedecer o papa ou deixar de pregar.

Com o passar do tempo sua consciência se impôs. Ele subiu ao púlpito e continuou pregando a tão ansiada reforma. Este foi seu primeiro ato de desobediência.

Outros atos de desobediência se seguiram, em nome de realizar o seu trabalho. Por fim, o Cardeal Colonna o excomungou em 1411, em nome do papa, por não ter aceito à convocação papal.

Mesmo assim, Huss continuou pregando em Belém e participando da vida eclesiástica, pois contava com o apoio dos reis e de boa parte do país, o que permitiu a Huss chegar a um dos pontos mais revolucionários da sua doutrina. Um papa indigno, que se opunha ao bem-estar da igreja, não deve ser obedecido. Huss não estava dizendo que o papa não era legítimo, pois continuava favorável ao papa pisano, mas que suas atitudes não estavam corretas e que a obediência a ele poderia ser questionada, mesmo ele sendo legítimo, em sua opinião. Seria apenas para que pudesse haver a chance de uma conversa para esclarecimentos e acertos.

Mas muitas situações aconteceram, tanto no questionamento de seu trabalho, como na disputa entre os papas na época, que levaram Huss a tomar a decisão de abandonar a cidade onde tinha passado a maior parte de sua vida.

No dia 5 de junho de 1415 Huss compareceu diante do concilio de Constança, que mostrava grandes possibilidades de mudanças na vida da Igreja. Poucos dias antes o papa João XXIII tinha sido aprisionado e trazido de volta para Constança. Como Huss tivera seus piores conflitos com ele, era de se supor que a situação do reformador melhoraria.

Mas sucedeu o contrário!

Foi acusado formalmente de ser herege, e de seguir as doutrinas de Wycliff. Huss tentou expor suas opiniões, mas a algazarra foi tamanha que ele não teve chance.

Depois de adiamentos e novas datas, o cardeal Zabarella preparou um documento que exigia de Huss que se retratasse e Huss respondeu: "Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente Justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdadeira justiça”. Mesmo preso por vários dias, na tentativa que ele se retratasse diante do Concílio, Huss continuou firme.

No dia 6 de julho, ele foi levado para o catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar o corte específico da sua posição. Por último lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira.

A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros. Mas uma vez o pediram que retratasse e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim, orou dizendo: "Senhor Jesus, por ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-te que tenhas misericórdia dos meus inimigos."

Para ler mais sobre Huss e sobre seus estudos, recomendo o livro Uma História Ilustrada do Cristianismo, Volume 5 – A Era dos Sonhos Frustrados – capítulo 6, de Justo L. GONZÁLES, que usei em grande parte para a elaboração do presente texto.
Extraído do site: compatilhandonweb
 
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